Os morcegos são os únicos mamíferos capazes de
voar.
De acordo com a Wikipedia, existem 11 116
espécies diferentes e representam um quarto de todas as espécies
de mamíferos do mundo. Têm, além disso, uma enorme variedade de formas e
tamanhos, uma fantástica capacidade de adaptação ao meio ambiente, uma das
dietas mais variadas entre os mamíferos e um sofisticado sistema
de eco-localização.
Não sei qual destas características nos faz ter
inveja deles. Será o voar? O sonar? Ou o facto de dormirem cerca de 20 horas no
total das 24 e de, mesmo assim, com uma duração de sono de fazer inveja,
sobreviverem tranquilamente há milhões de anos.
Inveja? Sim, assim diria porque hoje em consulta
tenho frequentemente pessoas de todas as idades com os sonos ao contrário.
Deitam-se depois das 6 e acordam a meio da tarde!
Dormem de dia, para de noite estarem acordados,
noite fora, a trabalhar, a jogar, no chat, a navegar na net, a
produzir ou criar qualquer coisa, ou, simplesmente, a ver televisão com mais ou
menos zapping.
São novos, adolescentes ou jovens adultos, são
pessoas de meia-idade em profissões criativas ou não, são reformados que se
deixam embalar pela noite.
Vida social? Não é certamente fácil. Saúde? É
certamente difícil, porque, tal como hei-de dizer muitas vezes, dormir de dia
acarreta problemas especiais e graves de saúde.
Porquê? Não, efectivamente, não somos nem
morcegos, nem ratos, nem mochos. Somos humanos e, tanto genética como
fisiologicamente, estamos feitos para viver de dia e não é a presença de luz
eléctrica que convence o nosso corpo do contrário.
A regulação dia-noite, chamada regulação
circadiana, foi adquirida muito precocemente na evolução da vida terrestre por
bactérias azuis, chamadas cianobactérias, que queriam evitar as mutações
induzidas pelo sol no seu ciclo de reprodução. Essa capacidade de organização
circadiana existe generalizadamente nos seres vivos, designadamente nas plantas
e nos animais.
Assim, é tão antiga, tão intrínseca, tão própria,
tão essencial, que não é a luz eléctrica que a demove.
Voltando aos morcegos. Estes fantásticos animais
voadores tiveram em muitas culturas um enorme impacto cultural: se é certo que
na tradição chinesa são símbolo de felicidade e longevidade e, no cinema, o
Batman é um salvador, na maior parte das culturas estes extraordinários animais
são associados a algo funesto, a tristeza, a vampiros e a morte e,
na África Ocidental, consideram-nos mesmo uma representação duma
“alma separada”.
Tenho uma enorme admiração pelos morcegos em si,
mas devo dizer que muitos dos morcegos humanos que conheci tinham uma espécie
de dor e de tristeza, como se algo neles estivesse de facto “separado”.
Professora Teresa Paiva
Lisboa, 19 de Abril 2013
NA PRÓXIMA SEMANA: DEAMBULAR OU SONAMBULAR? INCONSCIÊNCIA OU CRIME?